O DESPERTAR DA MULTIMODALIDADE NO BRASIL: ENTRE A OPORTUNIDADE ESTRATÉGICA E OS GARGALOS ESTRUTURAIS
- há 4 horas
- 2 min de leitura
Nos últimos meses, uma sequência de anúncios reposicionou a multimodalidade no centro das discussões logísticas no Brasil. Operadores expandiram rotas de cabotagem, corporações consolidaram soluções integradas e o governo apresentou uma carteira bilionária de concessões.
A título de ilustração, a Azul Cargo, por exemplo, passou a se chamar Azul Logística, ampliando sua atuação para os meios rodoviário, marítimo e aéreo. A MRS Logística anunciou a criação da MRS Hidrovias, projeto de R$ 1,5 bilhão para conectar o Centro-Oeste à malha ferroviária do Sudeste. Na cabotagem, a Aliança Navegação lançou uma rota expressa entre Itapoá (SC) e Manaus (AM), enquanto a Norcoast expandiu sua atuação no Nordeste, mais precisamente na Bahia.
Em paralelo, o Ministério dos Transportes apresentou oito projetos ferroviários estratégicos, e o Ministério de Portos e Aeroportos planeja leilões portuários e concessões de hidrovias (como Paraguai e Madeira). Mas esses movimentos já transformam a matriz de transportes ou são restritos a nichos?
Atualmente, a matriz brasileira é altamente concentrada. Segundo a CNT, o modal rodoviário lidera com 64,85%, seguido pelo ferroviário (14,95%), cabotagem (10,47%), hidroviário (5,25%), dutoviário (4,45%) e aéreo (0,03%).

Apesar da liderança das rodovias, há avanços. Os portos movimentaram 103,9 milhões de toneladas em janeiro de 2026 (alta de 12,2% ante 2025). As ferrovias transportaram 74,69 milhões de toneladas no primeiro trimestre de 2026 (alta de 4,2%). Na cabotagem, o volume saltou de 400 mil TEUs em 2008, para 1,5 milhão em 2024, impulsionado por R$ 3,5 bilhões em investimentos na frota nacional.
O potencial natural do Brasil é imenso. São mais de 8 mil quilômetros de litoral, com 60% da população vivendo a até 200 quilômetros da costa. Contudo, a cabotagem ainda enfrenta barreiras culturais. Muitas empresas a veem como concorrente direta do caminhão, quando sua eficiência máxima ocorre de forma integrada (porta a porta), exigindo planejamento rigoroso de estoques e produção.
Nas ferrovias, o desafio é a infraestrutura. O Brasil possui apenas 3,62 km de trilhos para cada mil km² de território, densidade muito inferior a de países como a Rússia, que transporta 81% de suas cargas por ferrovias. Para mitigar isso, novos projetos públicos visam mobilizar até R$ 656 bilhões (como a Ferrogrão e a Ferrovia Norte-Sul), além de investimentos privados expressivos, como os R$ 5 bilhões da Rumo na Ferrovia Estadual de Mato Grosso.

Nós da Modal Consult, enxergamos que a multimodalidade avança de forma consistente, mas gradual, concentrada em corredores específicos e grandes cadeias produtivas. A transição para uma matriz equilibrada depende da execução real dos investimentos anunciados e da superação de gargalos regulatórios, fiscais e culturais. O momento é de oportunidade, mas o sucesso exigirá enxergar os diferentes modais não como concorrentes, mas como elos complementares de uma mesma cadeia de valor.

MULTIMODALIDADE NO BRASIL OPORTUNIDADE E GARGALOS




Comentários