A RECONFIGURAÇÃO HÍDRICA NOS PORTOS BRASILEIROS
A infraestrutura portuária brasileira vive uma transformação estrutural. Historicamente avaliados apenas por critérios de capacidade de movimentação de carga, profundidade de calado e agilidade no transbordo, os terminais marítimos e fluviais do país passam a colocar a sustentabilidade hídrica no centro de suas estratégias operacionais. A adoção crescente de sistemas de reutilização de água, tratamento de efluentes e captação de água da chuva demonstra que a gestão ambiental deixou de ser uma agenda periférica de conformidade para se tornar um vetor de resiliência, redução de custos e mitigação de riscos operacionais e reputacionais. Na visão da Modal Consult, esse movimento reflete o alinhamento definitivo entre a eficiência logística e os preceitos da agenda ESG.

A análise das práticas adotadas por diferentes instalações pelo país exemplifica como as soluções de engenharia vêm sendo customizadas para responder às demandas operacionais de cada perfil de carga. No Porto Sudeste, em Itaguaí, por exemplo, o terminal alcançou a marca de 86% de reaproveitamento da água utilizada em suas operações industriais, um salto expressivo frente aos 42% registrados em 2019. Com o uso de estações de tratamento de efluentes e drenagem pluvial segregada, a água reciclada é direcionada para atividades de grande consumo não potável, como a lavagem pesada de equipamentos e a umectação de vias e pilhas de minério para contenção de poeira.
Em Santa Catarina, o Porto Itapoá reaproveitou mais de 1,1 milhão de litros de água em 2024 por meio de sua estação de reúso, obtendo uma redução de 8% no consumo da rede pública e estabelecendo a meta de cortar em 25% o uso de água potável até 2028. No Norte do país, o Terminal de Belém, da Transpetro, implementou um sistema de captação pluviométrica capaz de reaproveitar até 3,6 mil metros cúbicos por ano, além de soluções voltadas às bacias de contenção de GLP. Outras abordagens funcionais ganham espaço no setor, a exemplo do uso de efluentes tratados para irrigação de áreas verdes no Complexo do Pecém, no Ceará, e do reaproveitamento da água de lavagem de maquinários na Portonave.
Apesar da evolução dessas iniciativas, a consolidação dessas práticas em escala nacional enfrenta um gargalo metodológico a ser considerado. A ausência de um levantamento público unificado e padronizado sobre o volume total de água reutilizada no setor. Atualmente, concessionárias e autoridades portuárias mensuram dimensões distintas da gestão hídrica, o que impede a comparação direta entre terminais. Enquanto algumas instalações acompanham a taxa percentual de reúso em relação ao consumo total, outras medem o volume absoluto economizado em metros cúbicos, o consumo específico por tonelada movimentada, como faz o Porto do Itaqui, no Maranhão, ou a proporção de unidades dotadas de infraestrutura pluvial, diretriz adotada pela Vports, no Espírito Santo.

A maturidade operacional do setor dependerá da capacidade de transformar iniciativas isoladas em sistemas integrados de gestão, com métricas transparentes e auditáveis. Sob as perspectivas econômica e estratégica, o avanço da eficiência hídrica reduz a dependência de captações públicas e protege a operação contra períodos de estresse climático, assegurando a continuidade de serviços ambientais essenciais. Ademais, a comprovação de indicadores sustentáveis amplia o acesso a linhas de crédito verde e reduz o custo de capital para novos investimentos. Trata-se de um caminho promissor para a logística nacional, movimentar volumes crescentes de riqueza com uma pegada hídrica cada vez menor.
A RECONFIGURAÇÃO HÍDRICA NOS PORTOS BRASILEIROS




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